AEducação de um Príncipe Cristão, de Erasmo, e O Príncipe, de Maquiavel, foram escritos com uma diferença de três anos um do outro (em 1516 e 1513, respectivamente).1 Ao compor seus tratados sobre a melhor forma de preparar o governante para um governo eficaz, ambos estavam reagindo à instabilidade política da época, e ao ‘pânico moral’ (segundo a caracterização de um historiador) provocado por um período de aspirações dinásticas e ambições territoriais elevadas por parte das famílias reinantes mais poderosas da Europa (os Médicis na Itália, os Valois na França e os Habsburgos na Espanha, Alemanha e nos Países Baixos). Reagindo à retomada do poder em Florença, em 1512, pela família Médicis (deposta pelos franceses em 1494), Maquiavel dedicou-se a definir as qualidades da virtuosidade do príncipe que irão garantir sua capacidade de manter o controle sobre o estado de que ele se apoderou. Os preceitos por ele formulados para tal, baseados na ameaça de punição por má conduta, o compromisso com o expansionismo territorial e a disposição de manter o controle político pela força, destinam-se a manter os súditos do príncipe em um constante estado de insegurança: ‘é mais seguro ser temido do que amado’, por exemplo, ou ‘o príncipe deve ter como único pensamento ou objeto a guerra e suas leis e disciplina’.2 (1) Entretanto, O Príncipe de Maquiavel só foi publicado em 1532. (2) Ver Charles B. Schmitt, Quentin Skinner e Eckhard Kessler (eds.), The Cambridg.