Apesar de aceita sem muita discussão, a obesidade é definida, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), como uma doença caracterizada pelo excesso de gordura corporal que traz prejuízos à saúde. Na prática clínica e em estudos epidemiológicos, porém, não se mede a gordura corporal e nem se sabe, para todos os efeitos, qual seria o limite de aceitabilidade da quantidade de gordura corporal antes que haja repercussões na saúde. De qualquer forma, a obesidade ocorre num quadro prolongado de ingestão energética maior do que o gasto energético, ou seja, balanço energético positivo. Este livro aborda a obesidade dentro da perspectiva da saúde pública enfocando aspectos do diagnóstico, etiologia, agravos à saúde, epidemiologia e medidas de prevenção, tendo como base, sempre que possível, os dados disponíveis na população brasileira. Inicialmente, discutem-se os métodos usados para o diagnóstico da obesidade, as suas limitações e qual são as alternativas pensadas hoje para a área. Os achados dos principais estudos nacionais e regionais que avaliaram a situação epidemiológica da obesidade no Brasil são discutidos a seguir. As possíveis causas que ajudaram na construção do quadro epidemiológico no Brasil são apresentadas com a integração de dados oriundos de diversas fontes que contribuem para o entendimento da situação de balanço energético positivo na população brasileira. Por fim, discutem-se as alternativas recomenda- 8 ] das para a prevenção da obesidade e o controle da massa corporal, dando-se ênfase aos relatos dos programas bem-sucedidos, os guias alimentares propostos para uma alimentação saudável e os problemas inerentes ao cálculo dos requerimentos energéticos na população em geral. As principais referências usadas são comentadas ao final do livro, nas sugestões de leituras; e as citadas ao longo do texto são listadas nas referências bibliográficas. As opiniões e interpretações da literatura biomédica são fruto de trabalho do autor, acumuladas em pesquisas e estudos nos últimos 15 anos. A primeira aproximação ao tema foi ao documentar, através de um sistema de vigilância nutricional, a ocorrência de desnutrição em crianças e sobrepeso/obesidade na população adulta, particularmente, de mulheres que moravam na área de atendimento da unidade de saúde associada à Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp-Fiocruz). Esse aparente paradoxo levou o autor a analisar os dados da Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição (PNSN) realizada em 1989 pelo extinto Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição (Inan) e pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com uma formação acadêmica nas áreas de Nutrição e Fisiologia do Exercício, o autor passou a associar o quadro nutricional obtido em análises dos grandes inquéritos nacionais com as características ocupacionais da população brasileira nos inquéritos nacionais. Essa experiência levou à sugestão de incorporação de perguntas sobre a atividade física na Pesquisa sobre Padrões de Vida (PPV) realizada em 1997 pelo IBGE em amostra populacional dos brasileiros residentes no Nordeste e Sudeste. Paralelamente, o autor criou o Laboratório de Avaliação Nutricional e Funcional na Universidade Federal Fluminense (UFF) no qual foram desenvolvidos estudos sobre o estado nutricional, e as características de gasto energético [ 9 em vários segmentos da população. Atualmente, o autor estuda os fatores associados à obesidade em nível familiar, na tentativa de entender o processo que leva a somente alguns membros das famílias desenvolverem o sobrepeso/obesidade. Esse é um texto que aborda as questões relacionadas à obesidade sem a preocupação imediata de se referenciar todas as afirmações. Tentou-se apresentar o texto com todas as informações técnicas envolvidas mas da forma mais breve possível. Entretanto, foram inevitáveis, em alguns momentos, os detalhamentos técnicos que são apresentados como forma de orientação geral sobre o tema. Espera-se que o texto possa ser útil tanto para a população em geral e para os iniciantes na área quanto para os profissionais de saúde. Ao longo do livro procurou-se usar a nomenclatura correta da medida da massa corporal (em vez de peso corporal) e de energia (em vez de caloria). Espera-se que este texto possa fazer com o que o leitor pense nas várias faces da intricada área da obesidade, principalmente num país como o Brasil que vive um período de transição e de crescimento rápido para uma sociedade cada vez mais urbana e muito desigual. O autor agradece a generosidade da sua filha, Debora Couto Anjos, que o recebeu durante um período longo em sua casa, apesar dos seus afazeres intensos, fornecendo a infra-estrutura adequada para concentração na produção deste texto. O autor agradece, ainda, à Cristina Pinheiro Mendonça, Inês Rugani Ribeiro de Castro, Luciene Burlandy, Mauricio Teixeira Leite de Vasconcellos e Vivian Wahrlich que vêm contribuindo há algum tempo com o autor com discussões sobre o assunto e realização de estudos conjuntos que serviram de base para muitas das questões apresentadas neste livro.