Muitas pessoas têm a impressão de que ler, entender e explicar a Bíblia é coisa complicada. Isso pode ser resultado de sua própria experiência, um tanto quanto frustrante, mas, ao que parece, tem muito mais a ver com o que dizem e fazem outros intérpretes da Bíblia, que vendem a imagem de que o processo é, de fato, extremamente complicado. Há alguns malabarismos exegéticos e interpretações de caráter duvidoso que confundem os menos avisados. Além disso, livros de hermenêutica que tendem a focalizar problemas de interpretação reforçam a idéia de que interpretar a Bíblia é coisa muito difícil. Na verdade, interpretação bíblica não é, e nem deveria ser, tarefa acessível apenas a especialistas. A Bíblia é um livro claro. E não é de hoje que se diz isso; a própria Bíblia já o afirma (1 Co 2.11; 1Jo 2.27). A Escritura Sagrada, por si só, é clara e compreensível também às pessoas simples. Em vista disso, os antigos diziam que não se deveria pressupor a necessidade absoluta da hermenêutica. Ou seja, estudar princípios de interpretação não é condição necessária para entender a Bíblia. A rigor, tudo que se tem a fazer é ler o texto e dar atenção ao contexto. O problema de muitos é pensar que, no momento em que começam a ler a Bíblia, não mais se aplicam as regras que valem para a leitura de outros textos. O simples fato de citar versículos já dá a impressão de que o texto bíblico é diferente. Na verdade, porém, a gente começa a ler a Bíblia como se lê a carta de um amigo. É importante saber que se trata de uma carta. É preciso lidar com a língua e a história. Em outras palavras, é preciso levar a sério e decodificar o que está escrito, e levar em conta o momento histórico em que o texto foi escrito. Isto é, a rigor, exegese histórico-gramatical. Este livro não parte do princípio de que alguém só será intérprete da Bíblia a partir do momento em que estuda hermenêutica. A rigor, cada pessoa aprende hermenêutica desde o momento que nasce. Ela aprende isso na família, na Igreja, na escola, na vida. Os manuais de hermenêutica existem para que as pessoas possam crescer no processo de leitura e compreensão do texto bíblico. Entre outras coisas, a hermenêutica ensina a ler e trabalhar com método. Ela lembra ao cristão de hoje que leitura e interpretação da Bíblia começaram muito tempo antes dele. Ela tem importante papel quando se trata de evitar os equívocos e as falácias exegéticas. Ela ajuda o intérprete a justificar a sua exegese e permite que ele se convença a Si mesmo e a outros da viabilidade da leitura proposta. Por último, a hermenêutica é importante quando se trata de avaliar a metodologia e as conclusões de outros exegetas. Este livro se divide em três partes: I - O objeto de análise: a Bíblia; II - O método exegético; III - O método aplicado a diferentes gêneros bíblicos. A primeira parte apresenta o livro que é o objeto de análise exegética: a Bíblia. Interessam questões relacionadas com a formação do cânone bíblico, a história da transmissão dos textos originais e sua publicação hoje, a tradução do texto e a história da interpretação. O método exegético, com o qual se ocupa a segunda parte, é uma tentativa de capacitar o leitor a fazer seu trabalho exegético com maior proveito. É um roteiro de trabalho que ajuda a ordenar e disciplinar a leitura. Um método não pode ser uma camisa de força ou um esquema imutável. Além de flexível, precisa também levar em conta ou ser adaptado às diferentes formas literárias encontradas na Escritura: narrativas, parábolas, poesia, epístolas, textos proféticos. Este é o assunto da terceira parte, que inclui também um capítulo sobre o Apocalipse.