Este livro marca um avanço digno de registo no estudo da Estratégia, que foi por mim introduzido nos currículos da Universidade Técnica (ISCSP), alargando ali a área das relações internacionais. As razões para adoptar essa orientação foram várias, podendo destacar-se as seguintes: tinha sido importante a contribuição dos Estados-Maiores ocidentais, na guerra de 1939-1945, para desenvolver a interdisciplina, não apenas para organizar a utilização dos programas científcos e técnicos que determinaram a evolução das artes da guerra, mas também para conseguir harmonizar a intervenção da cadeia de comando em relação a contingentes compostos por uma multiplica diversidade de etnias, culturas, e religiões; depois, a exigência, que continuou a acentuar-se na guerra fria, de as organizações de segurança e defesa recorrerem ao out-sorcing, com alguma deriva inquietante para a privatização da guerra; entre nós, para dar maior expressão ao saber das instituições de ensino superior militar, uma parcela valiosa da qualidade da investigação e ensino em que tem de assentar o envolvimento português na competição pela excelência que orienta a articulação transnacional de todas as instituições. Não é fácil, nesta entrada do milénio, conceptualizar a mudança acelerada de paradigmas, e organizar uma lógica de resposta à conjuntura, sem ter presente que, na expressão de Popper, o aparecimento de um único cisne negro destrói a convicção de que todos os cisnes são brancos: nesta data o cisne negro aponta para uma transformação da estrutura política do planeta sem modelo orientador confável, tendo sempre presente que os riscos de guerra não podem considerar-se eliminados, tudo a exigir uma verdadeira revolução intelectual e uma meditação profunda sobre os valores de referência. A era de Clausewitz era apoiada em discursos famosos, dos quais talvez algumas das intervenções de Winston Churchill representem o ponto fnal. No dia 13 de Maio de 1940, dirigindo-se ao Parlamento inglês, afrmou o seguinte: “Digo à Câmara, como já o disse aos ministros que se juntaram a este governo, que nada mais tenho para oferecer do que sangue, 12 António Silva Ribeiro trabalho, lágrimas e suor. Temos perante nós uma terrível provação. Temos perante nós muitos e muitos anos de luta e sofrimento. Perguntais, qual é a nossa política? Eu respondo, é travar a guerra em terra, no mar, e no ar. Combater com todo o nosso poder e toda a força que Deus nos der, travar a guerra contra essa monstruosa tirania nunca antes ultrapassada no negro e lamentável catálogo dos crimes contra a humanidade”. O meio século de guerra fria, durante o qual esteve sempre presente na memória dos dois blocos, NATO e VARSÓVIA, a experiência brutal do bombardeamento atómico do Japão a inspirar a contenção das capacidades partilhadas de destruir a humanidade, terminou com a queda do Muro de Berlim em 1989, com um avanço científco e técnico que orientou para novas disciplinas de segurança e defesa. Em primeiro lugar para a revisão das políticas militares, em busca de uma racionalização das estruturas e do armamento, tendo presente o fm da balance of power, com os EUA dotados de “An overstuffed armed forces” (Lawrence J. Kork), a caminho de uma sofsticação de meios sem precedentes, que conduziu ao conceito de exército de laboratório e de guerra cirúrgica, concebido como levando à vitória com apenas perdas do adversário. Aquilo que não foi possível prospectivar confavelmente foi a espécie de confitos futuros, à medida que se multiplicavam os factos que envelheciam a experiência anterior: a necessidade de reformular a histórica directiva da preparação soberana para a guerra como condição de assegurar a paz, ganhou exigência com o processo de formação da União Europeia, com as antigas grandes potências a convencionarem o controlo dos armamentos em conferências plurilaterais, com defnição de “medidas de conÀanoa e VeJXranoa”, tudo sem todavia eliminar a “mentira real” das relações entre Estados. A realidade foi entretanto acentuando a “PXdanoa de naWXre]a daV aPeaoaV”, como que desenhando dois mundos diferentes, na concepção de Maurice Bertrand (/e Àn de O·2rdre MiOiWaire ): um mundo, como que emergente, em que os riscos das guerras tradicionais subsiste, envolvendo sobretudo as recentes soberanias nascidas no que os ocidentais chamaram “o resto do mundo”, regiões pobres, pouco desenvolvidas, por vezes com regimes ditatoriais, com fracturas e composições plurais, étnicas e culturais, herdadas da situação colonial, sofrendo os efeitos colaterais do globalismo económico; com o diferente mundo, das sociedades afuentes e consumistas, sediadas na área que foi chamada a “cidade planetária” do Teoria Geral da Estratégia 13 norte do Globo, sem questões territoriais importantes, incluindo os poderes emergentes como a China, e que vão formulando e aderindo a uma nova percepção da segurança global, fazendo progredir o conceito de “sistema de VeJXranoa”, muito apoiado na doutrinação da ONU, que vai parecendo agora menos escutada. Esta circunstância temporal de mudança não assegura que a síntese fnal prospectivada de um tal sistema tenha um trajecto livre de acidentes, o que alimentará sempre uma problemática apreensão: doutrinas como a do ÀP da KiVWyria (Fukuyama), do unilateralismo dos EUA, da concepção da guerra cirúrgica, da assumida “reYoOXomo naV TXeVW}eV PiOiWareV” apoiada nos sofsticados avanços tecnológicos e nas tecnologias da informação promissoras de vitórias sem custos operacionais, tudo proporcionando redução de efectivos profssionalizados, não impediram que a realidade desencadeasse “ruturas em cascata” (Étienne de Durand), como demonstram o Iraque e o Afeganistão, duvidosamente entre os caminhos da guerra e manutenção da paz. O facto é que a tranquilizante sofsticação tecnológica dos ocidentais é desafada pela proliferação das armas de destruição maciça, com a gravidade da ameaça no Irão e na Coreia do Norte, e o fundado receio que admite o estabelecimento próximo de duas dezenas de potências mundiais; por outro lado, uma teoria de noYoV conÁiWoV, e noYaV aPeaoaV, o deVaÀo do forte ao fraco, o terrorismo global, excedem os conceitos operacionais da racionalização tentada pela RMA – uma anunciada revolução nas forças armadas. O recurso à semântica paliativa talvez não seja sufciente para dar validade, mais que auxiliar, aos propostos conceitos operacionais: os franceses distinguem coercition de maîtrise de la violence, os americanos distinguem entre guerra e oXWraV oSerao}eV, diferenciando, como que ideologicamente, entre alta tecnologia e rusticidade, entre guerra e conÁiWoV atípicos (Herfried Münkler, John Keegan). Esta situação, encaminha para reconhecer que desponta um novo, mas apenas vislumbrado, internacionalismo, pondo o acento tónico na VeJXranoa, que inspira a investigação, a doutrina, e a governança, com um longo caminho a percorrer. O desígnio da segurança, que inclui ameaças militares e não militares, tem obstáculos inesperados, como acontece com o desastre fnanceiro global que marca a entrada